O titulo deste"filme",traduzido para
português, pelos gajos que fazem a tradução dos
titulos dos filmes estrangeiros, será com certeza, algo
como"Retalhos da vida de um motociclista,português".
Vá lá que não traduziriam para"Crónicas
da ...." o que seria um insulto às verdadeiras(as da Paula
Kota).
Praça de touros: estação de serviço de
uma gasolineira, na A1.
Cavaleiros, forcados,bandarilheiros,picadores ,rojoneadores:staff
da estação,mais a ..."chefa".
Touro:um motociclista normal ,de Torres Vedras.
Aficion:alguns automobilistas,camionistas,crianças, e outro
motociclista "à civil..."( ou seja: de carro).
"....A MOTA É PRÉ-PAGAMENTO..."ouvi, pela megafonia,
procurando ,instintivamente o culpado, com os olhos.
La estava ele, moto estacionada no descanço central,
capacete colocado em cima do banco(de onde caiem 95% dos
capacetes), luvas nos conta-quilómetros, mangueira na
mão, seca.....
Desloco-me atras do motociclista para a "arena" , a ferver por
dentro e prontinho,prontinho para ajudar, apoiar, vocifrar se
preciso fosse em apoio do ...."touro".
Não foi preciso.Com uma "calma olimpica" digna de inveja,
com um traquejo que só poderia vir de outras
situações, diz:Bom dia(primeira bofetada...), desejo
atestar!
"TEM QUE PAGAR PRIMEIRO...".replica a toureira da caixa, sem
devolver o cumprimento, e sem lavantar os olhos(tambem acho que
mascava chiclet, mas não tenho a certeza)
Sem uma palavra mais o nosso touro, depositou , em cima do
balcão, o capacete, as luvas, a chave da moto, a carteira
aberta e disse: 600 euros do capacete,120 das luvas, a chave da
minha moto, e a minha carteira com 150 euros....POSSO
ABASTECER?
A toureira, estupefacta olha para o toureiro(o colega da caixa do
lado),e ....não reagiu,....não disse nada!
Para minha surpresa ,surpresa de todos os que aguardavam e espanto
dos toureiros, rodou saiu para a bomba, deixando todos os pertences
em cima do balcão! Fiquei siderado!Nunca por nunca me
lembraria de fazer aquilo, e acho que nunca teria coragem de
abandonar,a carteira aberta, em cima de um balcão, à
beira de estranhos!Uma admiração sem limite , foi o
que senti , ao ver que sem palavras a toureira"libertou o
acionamento da bomba e o touro, abasteceu até ao fim.
Já não consegui ir embora.Aquela "faena" estava a
ser"divinal"...(perdoem-me o gozo mas estava a viver uma
situação de glória, num ambiente em que
normalmente é de achincalhamento, quando acontece
comigo...).paguei o mais rápido que pude, e
fui"disfarçar" para as prateleiras dos jornais e das
revistas...
O touro chegou, pagou sem uma palavra, e no fim disse:IMPORTA-SE DE
ME FACULTAR O LIVRO DE RECLAMAÇÕES?O olhar
envergonhado da toureira dizia tudo...,foi buscar o livro e
a....mestre de cerimónias com aspecto de chefa( a farda era
diferente e um bocadinho mais elaborada)....
"PRA QUE É QUE QUER O LIVRO?....
"Bom dia(segunda bofetada...) disse calmamente aquele que já
era o meu heroi..." não sou obrigado a fazer a
reclamação oralmente, antes de a passar a
escrito...", completou.
Um olhar furibundo, porque não conseguiu dizer nada,
acompanhou a entrega do livro.
Não sei o que escreveu, mas a avaliar pelo comportamento
sensacional de calma, inteligencia, que exuberantemente demonstrou,
deve ter estado ao "mesmo nivel" da "ferocidade e garbo"
demonstarados na arena.O final da cena, conta-se
rápidamente, com a chefa ruborizada, de vergonha a balbuciar
desculpas de que ...""a responsabilidade não era do posto
mas sim da administração da companhia fornecedora...,
o heroi impavido e sereno e calado , a aguardar a entrega da copia,
até que , na posse de todos os pertences voltou para a
moto.Segui-o com respeitosa e deferente distancia, e só
consegui comunicar a minha admiração, fazendo-lhe o
gesto do polegar para cima, enquanto nos encaminhavamos em
direcções opostas nas zonas de abastecimento.Guia uma
Yamaha FJR azul metalizada, tem uma placa de matricula de Torres
Vedras(concessionário?motoclube?), e um capacete Arai
branco.Não sei mais nada dele.Não preciso de saber
mais nada.Aquele "touro", saiu em ombros, carregadinho de "orelhas
e rabos". e ao som do clarinete.Admiro-o!
Artigo de Mário Campos
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